Início > Alverca > As crianças e a crise

As crianças e a crise

Olga Fonseca*

A imagem de como a crise económica está a afectar a vida das crianças e das famílias em toda a União Europeia (EU) já se começa a revelar. O desemprego será a ponta do iceberg, mas o impacto na vida dos mais vulneráveis começa já a mostrar uma realidade nada agradável e seriamente preocupante.

Estive, na semana passada, em representação da Fundação CEBI no Fórum Político do Eurochild (organização europeia de promoção dos Direitos da Criança), em Bruxelas, e foi geral a preocupação dos membros dos vários países europeus presentes acerca da forma como os governos estão a contornar as suas promessas de investir em esforços para reduzir a pobreza infantil e promover os direitos das crianças.

As reformulações e os cortes nos apoios sociais às famílias são uma das preocupações de todos, com o prognóstico negativo do que irá ser o impacto sobre as condições de vida das crianças e sobre o aumento das situações de risco a que, cada vez mais, ficam sujeitas.

As crianças já eram mais vulneráveis à pobreza antes da actual crise se instalar, com quase uma em cada cinco a viver nessa situação. Agora esses números tendem a ser muito maiores. A necessidade de concentrar a atenção política especificamente nas crianças – dentro de uma estratégia de luta contra a pobreza global – sempre foi uma das principais preocupações do Eurochild. Isto porque, como se sabe, as crianças têm muitas vezes sido ignoradas como um grupo, pensando-se nas suas necessidades quase exclusivamente no âmbito da política de família.

Mas as crianças são cidadãos de pleno direito da UE e merecem ser tidas como tal e que a sua infância seja reconhecida como um período particularmente sensível de mudança. A rápida e eficaz intervenção nesta fase da vida pode ter impacto a longo prazo sobre os resultados e contribuir para romper padrões inter-geracionais de pobreza e de desvantagem social.
A vivência da crise pode ter impacto duradouro sobre o desenvolvimento social, emocional, moral e educacional das crianças. Isso incluirá tantos impactos directos em casos mais graves, como impactos mais subtis relacionados, por exemplo, com a forma como as crianças conseguirão gerir o stress familiar ou como os jovens tomarão decisões sobre o seu futuro, de acordo com as perspectivas e oportunidades percebidas.

Do ponto de vista do Eurochild, a pobreza infantil e o bem-estar das crianças devem ser mantidos no topo da agenda política como parte de uma estratégia sustentável de longo prazo para erradicar a pobreza no seio da UE. O investimento nas crianças não pode esperar, sob pena de terem que acarretar com os reflexos negativos esperados no seu desenvolvimento e que as gerações seguintes sentirão.

Os membros do Eurochild (entre eles a Fundação CEBI), continuam pois a apelar, em documentos objectivos, aos governos da UE para aproveitarem a oportunidade do Ano Europeu de 2010 Contra a Pobreza e a Exclusão Social e adoptarem metas reais e quantificadas de redução da pobreza, bem como para uma recomendação da União Europeia sobre pobreza infantil e a exclusão social, em que os Estados possam ser responsabilizados.

A recomendação deverá incluir um compromisso de combater a pobreza infantil dentro de um quadro de direitos da criança, bem como orientações claras sobre as boas práticas e os objectivos adequados no domínio dos serviços de intervenção precoce nos primeiros anos de vida, da educação, da saúde, da protecção infantil, do emprego das famílias, dos serviços sociais e de apoio familiares, habitação e lazer.

Os efeitos da crise serão sentidos na sociedade mesmo depois da economia começar a recuperar. Ao investir, como é dever dos Estados, nas crianças, estar-se-á a contribuir para atenuar o impacto negativo da crise e das situações de pobreza e fragilidade a longo prazo e a construir um futuro mais sustentável para as crianças e, afinal, para todos.

Destaque: “Do ponto de vista do Eurochild, a pobreza infantil e o bem-estar das crianças devem ser mantidos no topo da agenda política como parte de uma estratégia sustentável de longo prazo para erradicar a pobreza no seio da UE.”

 *Psicóloga Clínica e presidente da CPCJ – Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Vila Franca de Xira

Categorias:Alverca
  1. Ainda sem comentários.
  1. No trackbacks yet.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: