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Aprendendo sobre coisas especiais

Olga Fonseca*

Aqui há dias jantei com duas colegas e com um jovem de 12 anos que temos vindo a apoiar. O jovem (que assim se sente, rejeitando a ideia de ser ainda uma criança!) é sinalizado na escola que frequenta como sendo muito problemático, manifestando comportamentos agressivos para com os colegas e para com os adultos. É descrito como não tendo a noção dos limites e como não tendo capacidade para se relacionar de forma adequada e amistosa com as outras pessoas. Faz chamadas de atenção sucessivas (pela negativa, já se vê), bem sucedidas, mas, ao que tudo indica, mal interpretadas pelos adultos que apenas vêem a olho nu, sem espreitarem para o que estará por detrás das mesmas.

Rotulado de mal comportado e problemático, o jovem lá vai correspondendo às expectativas que já se depositam nele, ou seja, lá vai perturbando as aulas, chamando nomes aos colegas e por aí fora…

Naquele jantar, envergonhado de início mas depois não escondendo o contentamento de ter sido convidado por pessoas que gostavam da sua companhia, o jovem mudou de pele. E, através das suas palavras, aprendemos que é bom as pessoas gostarem umas das outras, que há várias maneiras de gostar e de estar com as pessoas, e que isso é sempre bom desde que se respeitem umas às outras.

Aprendemos também que nem sempre as pessoas se portam mal, que há pessoas que também nos vêem quando nos portamos bem (ainda que sejam mais raras) e que essas, geralmente, são especiais. Mas também aprendemos que, dentro da classificação “pessoas especiais”, há umas que são mais especiais do que outras e que, por isso, também se está com elas de forma diferente, consoante o quanto são “especiais”.

Então, por exemplo, se gostamos de alguém especial mas só um bocadinho especial, podemos ter uma “curte” com essa pessoa, ou seja, podemos dar uns beijinhos, uns abraços e pronto. Mas, se gostamos um bocadinho mais dessa pessoa especial, podemos “andar” com essa pessoa, o que é uma espécie de “mini-namoro”. Mas, namorar, isso já é coisa mais séria, aí a pessoa em causa já é mesmo muito especial e já podemos pensar numa relação, ou seja, já podemos namorar.

Então, nesta fase da relação especial com uma pessoa muito especial, o que se sentirá? Bem, segundo o jovem, pode-se Adorar! Sim, Adorar, porque também se pode vir a Amar; mas isso aí… Ah, isso aí é mesmo uma coisa muito, muito, mas mesmo muito especial! E só se sente com alguém que, pelo menos para nós (segundo o jovem), é muito mais que especial!

Findo o jantar, o jovem entregue aos pais, ficou no ar o sentir especial, de um jantar especial, onde se aprenderam coisas especiais sobre sentimentos especiais, com um jovem… problemático.

O que mais terão de especial os jovens problemáticos para nos ensinar?

*Psicóloga Clínica, presidente da CPCJ – Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco do Concelho de Vila Franca de Xira

Categorias:Alverca
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