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Há mais de um mês…

Luís Ferreira Lopes *

As fortes chuvadas de final de Fevereiro e início de Março deixaram marcas nas estradas em toda a área metropolitana de Lisboa – e o concelho de Vila Franca de Xira não foi excepção. O Inverno de 2009/10 foi muito chuvoso e as autoridades de protecção civil, câmaras e juntas, bombeiros ou polícias, não tiveram mãos a medir. Houve deslizamentos de terras para estradas; pontes ou estradas que tiveram de ser fechadas; e, claro, há hoje mais buracos por tapar. Tudo isso aconteceu (também) no interior deste concelho, em especial na estrada que liga Alverca a Arruda dos Vinhos.

No limite da freguesia de Alverca, em frente à bela freguesia da Calhandriz, um enorme monte de terra (que deslizou dos montes, perto do velho lavadouro de Á-dos-Melros) está há mais de um mês (vou repetir: há mais de 30 dias) a entrar pela estrada nacional, obrigando os automobilistas a desviarem-se – numa curva sem visibilidade – e a terem de entrar na faixa contrária. É um perigo óbvio para quem ali passa todos os dias; não é o meu caso, mas faço esse percurso com alguma regularidade.

Presumo que o Presidente da Junta da Calhandriz, um homem bem-intencionado que trabalha directa e diariamente com a Presidente da Câmara Municipal, terá contado à autarca o que se passa naquela zona. Presumo que o Presidente da Junta de Alverca também saiba do sucedido porque o território da cidade de Alverca termina ali. Presumo que os três autarcas tenham conhecimento, mas, caso não saibam, este vosso humilde munícipe passa a relatar: o que se passa é que a estrada de Arruda está cada vez mais perigosa desde a ponte estreita da ribeira das Silveiras (para quando a substituição ou alargamento?), passando pelo entroncamento para o Sobralinho, continuando por Á-dos-Melros e Adanaia, até ao entroncamento que liga Alhandra / São João dos Montes, Alverca a Arruda.

Ponto de situação em início de Abril: um dos acessos à Calhandriz está vedado porque as chuvadas danificaram a estrada local; na estrada nacional, as bermas estão cheias de erva, pedras e lixo (e tanto prisioneiro sem nada para fazer…); e, pior do que tudo, há montes de terra ou lama a entrar pela estrada há mais de um mês (nunca é demais repetir…).

Mas há uma entidade que não deve ter reparado nesta situação: o Instituto de Estradas de Portugal, herdeiro do mais inoperante e incompetente organismo do Estado que alguma vez conheci, a tristemente famosa JAE – Junta Autónoma das Estradas. Historicamente, esta instituição costuma “sacudir a água do capote” e assim parece voltar a acontecer neste caso que afecta tantos automobilistas que fazem diariamente a ligação Alverca – Arruda dos Vinhos.

É claro que o Instituto há-de dizer que tem outras prioridades e o dinheiro não chega para tudo. Imagino que argumente que, se a situação é assim tão grave, por que não hão-de as autoridades locais remediar e limpar a estrada daquele escandaloso monte de terra, argumento que, em teoria, até faria algum sentido.

É claro que a Câmara há-de responder que compete à antiga JAE cuidar das estradas nacionais, assim como deveria competir à antiga Hidráulica do Tejo limpar as ribeiras. Naturalmente, a CMVFX também se queixará da falta de verbas. E, entretanto, o monte de terra lá está, roubando quase metade de uma faixa de rodagem, naquela curva perigosa, mesmo no limite das freguesias de Alverca e da Calhandriz.

Como automobilista, sinto-me ofendido com tanta incúria porque significa um desrespeito pela minha vida e a dos meus concidadãos. Escrevo estas linhas mais de um mês depois das fortes chuvadas que estão na origem do deslizamento de terras. Não sei se os bombeiros já tiveram de acudir vítimas de algum acidente naquele local, desde então. Espero que até à impressão e distribuição deste jornal (onde comecei no jornalismo há quase 25 anos), ninguém fique ferido nalgum acidente rodoviário.

Como contribuinte, sinto-me roubado por saber que o Estado não actua quando tem de actuar rapidamente e gasta cada vez pior o dinheiro dos meus impostos – que, entretanto, vão aumentar em nome do PEC, um Programa de contenção das finanças públicas que tem Estabilidade no nome, mas de Crescimento (da economia portuguesa) tem muito pouco.

Como munícipe, sinto-me triste por não ter havido um autarca com coragem para pegar naquele monte de terra e despejá-lo mesmo à porta da sede do Instituto de Estradas. Ou que, pelo menos, resolvesse o problema e mandasse a conta para o dito Instituto presidido por Almerindo Marques, o gestor que pôs a RTP na ordem, mas não tem obra feita nas estradas.

Como português, não quero saber se a culpa é de um Almerindo, de uma Rosinha ou de um qualquer presidente da Junta; quero é que estes problemas concretos das populações se resolvam! É assim tão difícil perceber por que é que cerca de metade da população deixou de votar? Eu compreendo, mas até não é o meu caso… porque o voto é das poucas armas que o cidadão ainda tem nesta pobre e centenária República. Não temos reis porque, desde 1910, preferimos eleger ou despedir presidentes e governantes: é para isso que o voto livre serve.

Lamento começar a Primavera com uma notícia de Inverno. O monte de terra é hoje, mais de 30 dias depois das fortes chuvadas de Fevereiro, o monte da incúria, do desleixo, do “deixa andar” em que se está a transformar este país.

Espero que o caso se resolva antes das comemorações do 25 de Abril, quando os políticos gostam de discursar sobre o Desenvolvimento… um dos três D dos generosos militares que fizeram a revolução de 1974. Quando falarem da esperança num país melhor, pode ser que o perigoso-monte-com-mais-de-um-mês-em-plena-estrada-de-Arruda já tenha sido removido. Pode ser que nos ajudem a acreditar que a Democracia não é um luxo para este povo que tudo paga e, por enquanto, pouco se queixa.

* Editor de Economia da SIC, natural / residente em Alverca do Ribatejo

Categorias:Alverca, opinião
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