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NAT de Alverca traz esperança a população toxicodependente

 

REPORTAGEM. Nem tudo acaba com a droga. Não tem de ser assim. É este o trabalho que o Núcleo de Atendimento a Toxicodependentes de Alverca desenvolve há quase uma década

Ana Filipa de Sousa

Os primeiros utentes começam a chegar pouco depois das cinco da tarde. Na sala de espera fala-se da última jornada de futebol. O fim-de-semana correu bem aos sportinguistas e a vitória sobre os dragões dá o mote à conversa. Nesta terça-feira a afluência está, no entanto, um pouco abaixo do habitual, a espera para a toma da metadona é pequena e o diálogo é, por isso mesmo, circunstancial. Um fim de dia atípico no Núcleo de Atendimento a Toxicodependentes de Alverca (NAT) onde, quem ali trabalha, já se habituou a ver a fila de espera prolongar-se, tantas e tantas vezes, rua fora.

É ali na loja direita do número 10 da Rua dos Lavadouros, no Choupal, que o concelho de Vila Franca de Xira trava a luta contra a droga e tenta a reinserção de todos aqueles que acreditam na abstinência e ambicionam um futuro melhor. É assim há nove anos, desde que o Plano Integrado de Prevenção das Toxicodependências (PIPT) decidiu pôr em prática um conjunto de respostas locais vocacionadas para o tratamento e abriu os NAT de Alverca e Povos.

“Percebeu-se que a população toxicodependente do concelho só tinha respostas em Lisboa e que havia uma franja de pessoas que não teriam sucesso no tratamento porque desistiam pela distância”. A explicação ajuda a perceber como surgiram os núcleos de atendimento e é dada por Tânia Gomes, psicóloga clínica e coordenadora do NAT de Alverca.

Em quase uma década de trabalho, o Programa de Substituição pela Metadona acabou por assumir um papel de relevo, mas as 165 pessoas que o requentam, actualmente, não esgotam a actividade do NAT, que é muito mais abrangente. “Temos cerca de 300 pessoas em acompanhamento. Somos um centro local de apoio a toxicodependentes e isso abrange várias situações”, explica Tânia Gomes.

Envolvida no projecto há cinco anos, a técnica não tem dúvidas de que a abertura do Núcleo de Apoio a Toxicodependentes veio aproximar as pessoas das respostas e que o facto de quem precisa de ajuda saber onde a pode encontrar ajudou a transformar a realidade do concelho. “Há mudanças porque há um sítio onde as pessoas que precisam de ajuda podem vir. Isto acaba por funcionar como um centro de dia, onde os utentes têm uma porta aberta que os recebe sem critérios de exclusão. Sejam eles seropositivos, tuberculosos, mulheres que se prostituíram ou jovens que cometeram um crime”.

Entre o ano de 2001 e os dias de hoje, muita coisa mudou na luta contra a droga. Entre as pessoas que procuravam ajuda há nove anos e as que hoje chegam dispostas a enterrar um passado de dependência, há, cada vez mais, diferenças.

Se durante os primeiros anos de actividade, os utentes do NAT eram, essencialmente, pessoas com consumos pesados de heroína, hoje o cenário é outro. “Temos cada vez mais jovens com consumos de haxixe a pedir ajuda e pessoas com consumos de cocaína, mas com padrões de vida diferenciados. Aquele padrão do heroinómano, arrumador de carros, que vivia na rua, com um ar desgraçado que as pessoas identificam logo como toxicodependente já não representa o perfil de quem bate à nossa porta e se quer tratar”, assevera Tânia Gomes, que acrescenta que, “são cada vez mais pessoas diferenciadas, com curso, casa e filhos, um padrão de vida diferente e que começaram a consumir e, quando deram por isso, tinham a vida completamente desestruturada”.

Quando se perde a estrada da vida, nem que seja por um período curto de tempo, voltar a encontrar o trilho certo – ou pelo menos aquele que nos faça de novo ser aceites pelas normas da sociedade – é tarefa nem sempre bem sucedida.

“Nenhum tratamento está completo sem as pessoas estarem reinseridas. A reinserção é muito importante, social, familiar e profissionalmente”. É desta forma que se desenvolve o trabalho do NAT junto daqueles que ali procuram ajuda. Mas não acaba aqui, ou melhor, não se limita a ser um objectivo, uma meta. Há que estruturar essa entrada no “mundo novo”. Tal como diz Tânia Gomes, o desafio daquela estrutura “é ensinar as pessoas a viverem com o que têm e a aceitar aquilo que têm, mesmo não sendo o melhor dos mundos”.

Nesta viagem de volta, há um passageiro “clandestino” chamado recaída. No entanto, não se pense que é um “papão” que põe fim ao processo de tratamento e reinserção. “Há quem tenha de cair duas ou três vezes para tomar consciência de que é preciso fazer um processo diferente. Não basta trocar um traficante pelo NAT”.

Categorias:Alverca
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