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Madeira: defender o que é nosso

Luís Ferreira Lopes*

As imagens da tragédia chocaram Portugal inteiro e os casos de desalojados e de famílias que ficaram apenas com a roupa que tinham no corpo comoveram o povo do continente e das ilhas. De imediato, multiplicaram-se os actos de solidariedade: as pessoas enviaram roupa e alimentos; os bancos e empresas criaram contas e fundos de apoio financeiro; e o governo da República também foi solidário, criando linhas de crédito, enviando militares e protecção civil e activando ajudas europeias.

Depois de semanas de feroz luta político-partidária no Parlamento (e fora dele) por causa da lei das finanças regionais, durante a qual a Madeira foi “diabolizada” e usada como arma de arremesso na duríssima conjuntura das contas públicas de Portugal, o primeiro-ministro e o presidente do governo regional estiveram à altura dos acontecimentos trágicos e enterraram, por agora, o machado de guerra. É irónico que tenha sido preciso haver um autêntico dilúvio, com dezenas de mortes e milhões de prejuízo, para que Sócrates e Jardim se comportassem como governantes que são, com os defeitos e virtudes que cada um terá.

O importante, contudo, é ajudar aquela magnífica região, pérola do turismo de qualidade, apesar dos excessos urbanísticos dos últimos anos. Devemos ser solidários com a população pobre que mais pobre ficou, enviando dinheiro ou outros bens materiais, mas devemos cuidar do que é nosso. Por exemplo, comprando produtos regionais (vinho, frutos ou doçaria) e fazendo turismo na Madeira e também no Porto Santo. Isto não significa que deixemos de ter uma perspectiva crítica perante a construção exagerada e vários aspectos da vida / liderança política e social da ilha – porque nem tudo é um paraíso.

Ainda no ano passado estive no Funchal nas férias de Verão com a família, depois de ter estado no Algarve, e voltei lá em trabalho em Outubro. 2009 foi um ano de recessão, mas no Verão a Madeira e o Porto Santo recuperaram do primeiro semestre fraco graças ao turismo continental e, claro, britânico. É fácil perceber que a qualidade / preço rivaliza com outras regiões do país, demasiado cheias de gente em Agosto. Há uma oferta hoteleira e de restauração invejável que é fruto de um serviço com mais de 150 anos de tradição. Estamos perante gente de trabalho que leva a sério o turismo. Este negócio representa a principal fonte de riqueza da região autónoma. Há cuidado com a cultura regional, com os jardins, com a História e, nesse aspecto, a Madeira é uma lição para todo o país.

No ano passado, tal como este ano, fiz questão de fazer “férias cá dentro” porque, como optimista e patriota, considero que, especialmente em alturas de crise grave, devemos tratar bem do que é nosso e que deu muito trabalho aos nossos antepassados a manter com a bandeira lusitana. Quando viajamos pelos Açores, Alentejo, Madeira e outras regiões que ainda conservam a beleza dos elementos essenciais da Natureza, estamos a deixar dinheiro no nosso país.

Estamos a ajudar a criar riqueza (e a manter empregos…) através da procura interna, numa altura em que as exportações não descolam e a retoma da economia está, infelizmente, muito fraca, senão estagnada. Se fizermos um tipo de turismo que não estrague o ambiente envolvente, estamos a respeitar a Natureza – e isso (num cenário de visíveis alterações climáticas) é cada vez mais importante porque ela pode ser feroz e mortífera, como todos vimos em Fevereiro “naquela terra distante” que é um dos mais belos pedaços de Portugal.

* Editor de Economia da SIC, natural e residente em Alverca

Categorias:Alverca, opinião
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