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“Menos consumos não quer dizer que o risco tenha acabado”

 ENTREVISTA. Protocolado em Abril de 2000, o Plano Integrado de Prevenção das Toxicodependências (PIPT) constitui-se hoje como a principal arma de combate à droga no concelho de Vila Franca de Xira. Dez anos depois de iniciado o trabalho, Valentina Chitas, a coordenadora do projecto, garante que o concelho não figura entre os considerados problemáticos, mas avisa que isso não significa que o risco tenha diminuído

 

Ana Filipa de Sousa

Mário Caritas

 

Noticias de Alverca – Vila Franca está neste trabalho há quase dez anos. O que é que mudou?

Valentina Chitas – Há mudanças nos consumos, com um ligeiro decréscimo do consumo das drogas duras, como a heroína, e alguma estabilização do consumo de outras substâncias como o haxixe. Há novos consumos de drogas de consumo recreativo, como o êxtase, ainda que, também aqui, nos últimos anos esteja a haver uma estabilização. Do ponto de vista de consumos, Vila Franca nunca foi encarado como dos concelhos mais problemáticos. Só estamos um pouco acima no consumo do álcool.

E consegue-se perceber porque é que isso acontece?

São questões meramente culturais. Provavelmente, os jovens do concelho de Vila Franca frequentam menos alguns contextos nocturnos onde o consumo de outras substâncias está mais presente e frequentam mais o circuito do próprio concelho. As ofertas estão sempre ligadas ao tipo de hábitos dos jovens e depois aos consumos da população adulta. O álcool, sendo uma droga socialmente aceite e muito inserida no contexto das relações sociais, é uma substância que é consumida pela população em geral.

E isso está a acontecer em idades cada vez mais precoces?

A idade média de iniciação do consumo da maioria das substâncias no concelho, exceptuando o haxixe que começa aos 16, anda à volta dos 13 anos

Se há dez anos o consumo estava directamente relacionado com as drogas duras, hoje o cenário é outro?

A situação mudou. O fenómeno de rua, dos toxicodependentes na rua diminuiu porque o avanço nas respostas de tratamento permitiu um enquadramento social destes indivíduos e isso reflectiu-se no concelho.

Essa foi uma das vantagens do PIPT? Ajudar a acabar com o fenómeno de rua?

A visão de quem cá habita é que se nada tivesse sido feito continuaria a haver indivíduos desinseridos socialmente. Hoje temos um grande número de pessoas que conseguiram encontrar formas de reinserção, através do programa de metadona e outras formas de tratamento, e estão mais estabilizados.

Onde é que é mais urgente intervir no concelho?

Há núcleos que continuam a ser problemáticos e vulneráveis. No norte do concelho, os bairros sociais continuam a ser um foco, apesar de a intervenção ter minimizado algumas questões. Não nos podemos esquecer que os consumos têm formas de expressão altamente diferenciadas em função dos grupos. As raparigas consomem menos, têm menos comportamentos de risco. Depois temos subgrupos altamente vulneráveis que são os miúdos com insucesso escolar repetido que estão inseridos nos cursos de educação e formação onde existem prevalências muito elevadas deste tipo de comportamentos.             

O consumo de certas drogas continuam associadas a certos contextos sociais?

É obvio que as condições de pobreza e exclusão social são factores associados a mais comportamentos de risco a todos os níveis, mas ser uma minoria ética não é um factor de risco. A população jovem africana consome menos substâncias do que os jovens de origem caucasiana. O que não quer dizer que depois a população africana não esteja mais exposta a outros comportamentos de risco. Isso leva a que não possamos intervir de forma isolada, direccionamo-nos para a problemática de risco no geral.

Os jovens estão hoje mais despertos para os riscos do consumo?

Têm mais informação, mas quando desenvolvemos os nossos programas nas escolas percebemos que os jovens têm muitas falsas informações e crenças acerca dos efeitos. Depois, não é só a informação que conta, mas também as expectativas que têm sobre as consequências das mesmas. As pessoas consomem a pensar que as drogas têm efeitos positivos, que ajudam a resolver algumas tensões, a descontrair e até facilitam os contactos sociais. O acesso à informação tem um papel importante mas não é o que é necessariamente importante. Há toda a dimensão efectiva e social que vai muito para lá da informação sobre os efeitos na condição física e psicológica.

Nos núcleos de atendimento tem havido um crescimento na procura de ajuda?

Tem havido uma estabilização, com algumas flutuações. Houve o boom do início, porque foi uma resposta nova que apareceu e porque nessa altura havia muitas pessoas que não estavam enquadradas em qualquer processo de enquadramento, mas depois começou a haver uma tendência de estabilização. Não nos podemos esquecer que esta população tem muitas recaídas e, por isso, nunca se pode dizer que o tratamento começa aqui e acaba ali. Normalmente, estende-se ao longo de muitos anos porque existem várias flutuações deste comportamento. Mas, há a registar resultados positivos a nível da reinserção e da abstinência do consumo de substâncias.

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