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Era carnaval, nada parecia mal!

 

REPORTAGEM. Os bailes de máscaras que actualmente se fazem pelo Carnaval contrastam com as brincadeiras de outros tempos, de uma época que fomos conhecer ouvindo quem a viveu de perto.

Mário Caritas

“Dia de S. Sebastião, corno na boca e laranja na mão.” Era com este antigo dizer popular que, no passado, se iniciavam “oficialmente” os festejos do Carnaval, “por volta do dia 20 ou 21 de Janeiro”, recorda, com saudade, Inocêncio Casquinha, artista popular local, natural e residente no lugar de Arcena, que, ainda miúdo, assistia e participava com agrado nas inúmeras brincadeiras carnavalescas que se desenrolavam no sítio onde morava. A partir de meados de Janeiro já se podia pois brincar ao Carnaval. “Eram semanas seguidas de brincadeira. E, na altura do Carnaval em si, desde o sábado magro até à quarta-feira de cinzas, era festa de arromba todos os dias.”

Em Arcena, o Carnaval era vivido de forma tão intensa que era mesmo considerado pela população a festa mais importante do ano, ainda mais importante que o Natal. Recuemos aos anos 50 do século XX… “O Carnaval tinha muita força, tinha inclusive mais peso que o Natal e que a festa anual local. As cegadas, por exemplo, eram preparadas com dois/três meses de antecedência e vinham a Arcena.” Tudo culminava com o enterro do chouriço, uma tradição que se perde na memória dos tempos e que ainda hoje se pratica naquele lugar de Alverca.

“O Carnaval era uma loucura. Havia bastante harmonia entre as pessoas das várias terras, éramos autênticas famílias. Fazíamos as cegadas, brincávamos, mascarávamo-nos, as mulheres escondiam a comida umas das outras… e tudo caía bem. As pessoas eram unidas e nada parecia mal… Também se deitavam as pulhas, lá nos altos, em que dizíamos coisas para as moças novas: «A fulana tal anda a namoriscar com o fulano tal…» Aquilo era engraçado porque depois alguém respondia à provocação, uns estavam num alto e outros noutro; os de Arcena deitavam as pulhas no alto do moinho velho, mandavam-se «bocas» em forma de verso, sempre à noite, acompanhadas de alguém que tocava um búzio ou um corno de boi.”

Mas não só em Arcena o Carnaval era vivido intensamente. “A cegada começava na Praça João Mantas e parava nos vários sítios; então diziam-se versos, muitas vezes a atacar a pessoa que ali morava”, recorda Vítor Joaquim, 63 anos, elemento do Grupo Etnográfico de Danças e Cantares de Alverca que, embora fosse miúdo, ainda se lembra bem do efeito daqueles espectáculos entre a população do centro de Alverca.

Logo após o 25 de Abril, Manuel Moisão, Luciano Ferreira e outros recuperaram algumas tradições do Carnaval. Manuel Moisão, 72 anos, antigo taxista, recorda: “Nessa altura juntávamo-nos sempre três pessoas: eu, o Luciano e o Moutinho, éramos os principais organizadores do Carnaval em Alverca.” No dia do enterro do Entrudo (4.ª Feira de Cinzas), ficava-se a velar o “morto” na praça de táxis durante todo o dia e à noite fazia-se o enterro. “O morto estava dentro de uma urna já muito velha e ficavam ali uns quantos sujeitos vestidos de preto, que gritavam como se fossem seus familiares… O trânsito parava para ver! (risos) E, de vez em quando, o morto – que era um vivo – levantava-se com um cacete nas mãos. Aquilo era só rir.”

Categorias:Alverca
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