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Com um brilhozinho nos olhos

Olga Fonseca*

“Experiência não é o que aconteceu contigo mas o que fizeste com aquilo que te aconteceu.” (A. Huxley) Escolho esta frase para iniciar esta pequena reflexão de início de ano, de inicio da segunda década deste milénio, pois parece-me que comporta em si uma mensagem importante para todos nós, neste caso reportando-me ao contexto das crianças em risco e em perigo.

Ao longo dos meus já muitos anos de trabalho nesta área, juntamente com pessoas com quem tenho feito equipa, tenho-me esforçado por não me limitar a ficar presa à realidade objectiva das experiências que os tempos e as situações foram impondo e por ir lendo as diferentes realidades que essas experiências têm implícitas para, a partir delas, tentar criar as respostas que parecem adequadas às necessidades que vão sendo identificadas na comunidade onde e com que trabalho. Com as pessoas com quem tenho trabalhado, julgo que temos acreditado que com a devida arte e engenho e com empenhamento é possível transformar, pelas experiências, os saberes agidos colocados ao serviço daqueles que tanto precisam de ajuda, no caso as crianças em toda a sua vulnerabilidade.

No decorrer do tempo, o horizonte nem sempre é claro, muitas e muitas vezes está perfeitamente enevoado e encoberto, deixando adivinhar tempestades a enfrentar… As experiências têm sido (e são!) muitas vezes muito amargas! A realidade das crianças com que nos deparamos é cruel, tal como é cruel a realidade objectiva com que nos confrontamos e que nos revela uma sociedade onde nem as crianças escapam aos desajustes e violência entre os Homens.

Fazer o quê com aquilo que acontece àquelas crianças que são violentadas nos mais básicos dos seus Direitos? Como ajudá-las a acreditar que se pode sorrir, que se pode confiar, que se podem ter “sonhos bons”, que há quem goste delas, quem lhes queira dar colo, contar uma história, passear com elas, dar-lhes um beijo, amá-las… Como? E como encontrar quem, de facto, queira verdadeira e genuinamente fazer tudo isto? Conseguiremos nós, todos nós, ajudá-las a superar o medo de acreditar? Teremos engenho e arte para isso?

Comecei hoje a escrever com uma espécie de atrito entre a vontade e a consciência da necessidade… E pergunto-me porquê? Sempre senti que tinha algo a dizer quando se tratava de falar de crianças em risco, em perigo… De crianças que necessitam de uma casa, dum abrigo, dum aconchego. Porquê agora este sentimento, esta relutância em falar de novo da realidade objectiva destas crianças?

Questionei-me se não teria a ver com o facto de estarmos no início de mais um ano de muito trabalho ou com a noção de ter que continuar a criar, quase com magia (o engenho e arte nem sei se chegarão!…), soluções para acontecimentos tão dramáticos nas vidas destas pessoas tão pequeninas, tão frágeis, tão desprotegidas. Contudo, acabei por concluir que não era ali que estava o problema. Pois não, não era nada daquilo. Afinal trata-se apenas de estar cansada de pensar em crianças em risco e em perigo.

Crianças em risco? Crianças em perigo? Mas que crianças são estas? Uma espécie à parte entre todas as outras? Será que é de centros de acolhimento, de medidas a promover para intervir e para proteger crianças em perigo que temos de continuar a falar? É que temos de ser muito claros: na realidade objectiva, crianças em perigo, na grande maioria dos casos, são crianças que foram batidas, queimadas, cortadas, violentadas, pontapeadas, atiradas contra paredes, que dormem na rua, no chão, que passam fome e frio, enfim… são crianças que sofrem extraordinariamente! Queremos continuar a fazer destas situações a realidade subjectiva das manchetes de páginas de jornais, de temas de telejornais? Quereremos? Para quê? Que têm estas crianças ganho com isso? Alguém tem ganho com isso?

Discutem-se Leis, fazem-se estudos, acompanhamentos e continuam a fazer-se estudos de acompanhamento de implementação. Tanto trabalho! Tanta gente honestamente empenhada! Mas as crianças em perigo não diminuem de número. Antes pelo contrário! Não teremos vergonha de ter na nossa realidade tantas crianças em perigo? Imaginar-se-á o que se sente quando uma criança chega ao pé de nós e nos pergunta se também pode ter uma Família? Imaginar-se-á o que se sente quando se vê um bebé a crescer numa Instituição?

E o que fazer com a objectividade desta realidade? Continuar. Continuar e continuar e deixar as angústias no baú. Continuar a agir, a inventar, a criar, a recriar, a acolher, a dar colo. Continuar, é mesmo o que a experiência mostra que é preciso fazer! Quem sabe se um dia?…

* Psicóloga clínica

Categorias:Alverca, opinião
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