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“Foi o horror que vi em Dhaka que me fez voltar”

ENTREVISTA. Maria do Céu da Conceição deixou de ser apenas mais uma assistente de bordo portuguesa emigrada no Dubai para passar a ser considerada a Mulher do Ano, pela Revista Emirates Woman. Natural de Vila Franca de Xira, Maria viveu em Alverca e Vialonga, mas foi do outro lado do mundo que encontrou a sua verdadeira motivação. Em 2005, uma escala em Dhaka levou-a a fundar um projecto que iria mudar para sempre a sua vida. Tirar as crianças da rua e quebrar o ciclo de pobreza nos subúrbios da capital do Bangladesh tornou-se assim, dia e noite, na sua missão. Quatro anos depois do início da aventura, o projecto que começou por apoiar 39 crianças tem actualmente sob sua protecção mais de 600 e já levou à criação de um outro, mais focado nos pais dos “seus” meninos e na inserção profissional dos adultos. Porque o sonho comanda a vida e a sua obstinação não a deixa parar, Maria já traçou a rota da próxima viagem. O voo que se segue parte dos bairros de lata do Bangladesh e aterra nas favelas do Brasil

Ana Filipa de Sousa


Noticias de Alverca – Foi eleita a Mulher do Ano pela revista “Emirates Woman”.

Estava à espera desta distinção?

Tinha a esperança de receber o prémio da Mulher Humanitária do Ano apenas. Para meu espanto e de todos, momentos mais tarde foi-me atribuído o prémio da Mulher do Ano da Emirates, o prémio global devido a votação de pessoas em todo o mundo. A atribuição do prémio foi resultado de votação feita através da Internet no sítio da Emirates Woman. Fiquei de tal modo atónita que nem sei como fui da cadeira até ao palco… senti-me a tremer e quase que destruí o prémio tal era a força com que o segurava!

Como é que surgiu a ideia de fundar o Projecto Dhaka?

Surgiu na minha mente durante uma escala de voo que fiz em Dhaka. Estávamos em 2005 e eu estava no hotel Dhaka Sheraton… Perguntei ao porteiro que lugares seriam bons para visitar e ele respondeu-me que em Dhaka apenas havia hospitais e orfanatos. Então decidi visitar um orfanato. Deparei-me com um cenário tão horrível lá, uma miúda com uns 16 anos com gémeos, doente num estado de abandono tal, que eu fiquei em estado de choque… Saí de lá e aquela imagem não me saía da cabeça, voltei ao Dubai tão triste, incapaz de me concentrar… Ao chegar a casa fui buscar um vídeo e tomei umas bebidas para ver se me conseguia ver livre da aflição que me perseguia, mas sem resultados. Só consegui ganhar paz de espírito quando decidi que tinha de fazer qualquer coisa para ajudar aquela gente.

O que é que a fez voltar?

Foi o horror que vi em Dhaka que me fez voltar. Reuni muitas das minhas economias, vendi a mobília, pedi donativos de artigos usados aos meus colegas da Emirates, aos meus amigos, a passageiros…

Num país tão diferente, quais foram as maiores dificuldades em arrancar e cimentar o seu projecto?

As suspeitas, a mentalidade, as pessoas não confiavam nas minhas intenções… Foi muito difícil tranquilizá-los e convencê-los que eu queria ajudá-los sem que estivesse à espera de algo em troca…

Dos primeiros passos dados em 2005 até hoje o Dhaka Project cresceu. Quais são as principais diferenças?

No princípio havia gente esfarrapada, miúdos praticamente nus, sem escola, a pedir pelas ruas, escanzelados. Hoje, felizmente, já temos miúdos a que providenciámos educação, alguns já são fluentes em Inglês. Temos uma escola com capacidade para cerca de 400 alunos. Temos uma creche, um centro de costura, um centro de primeiros socorros, um dentista, uma cantina e outras facilidades, que as crianças podem usar e que pode dar algum apoio aos seus pais.

Está também a dar os primeiros passos num outro projecto que pretende trabalhar com os pais dessas crianças. Qual é a ideia?

Com o Catalyst queremos ensinar inglês aos adultos, pais das nossas crianças, até atingirem um nível aceitável para conseguirem um trabalho que torne a sua vida sustentável. Depois de estarem aptos, tentaremos conseguir que arranjem trabalho no Dubai ou em Dhaka, o que é um pouco difícil no princípio, como acontece com todos os primeiros passos, mas que esperamos poder concretizar-se no futuro. Já houve quatro casos de homens a conseguir um trabalho no Dubai, vai haver mais um caso em Janeiro de 2010 e estamos em vias de conseguir um quinto.

Como é que consegue conciliar a sua vida profissional com esta actividade que, como se percebe, exige tanto de si?

Com muito sacrifício… muitas dificuldades, muitas despesas, e dedicação de quase todo o tempo disponível…Por vezes fico mais de 30 horas, ou mesmo mais de 40 horas sem dormir para, a seguir a um voo em serviço, poder entrar noutro avião para ir a Dhaka, levando sempre a carga máxima que me for concedida… numa das vezes tive de organizar quase 500 quilos de bagagem a seguir a um voo de dezasseis horas… foram quase 40 horas em pé.

Já tornou público que gostava de ajudar as crianças do Brasil. O que pretende fazer em concreto?

Sim. Pretendo fundar um orfanato para 20 a 25 crianças entre os 4 e os 5 anos. Já temos dois patrocinadores interessados em financiar parte deste projecto e estamos à procura de casa. É claro que iremos sempre precisar de muitos donativos para conseguir esse objectivo.

O que é que a move para que todos os dias trabalhe para esta causa tão exigente e onde as dificuldades são, como explica, sempre tantas?

Simplesmente… O sorriso das crianças. O incentivo que a confiança e a esperança que as crianças têm em mim é o suficiente para que eu consiga recarregar as baterias nas horas difíceis. É também compensadora a ajuda moral que tenho recebido dos voluntários portugueses, entre muitos de outros países que me têm impressionado.

Até quando pensa continuar com esta causa?

Até as minhas crianças chegarem ao fim da Universidade. Mas como elas vão sempre nascendo… Só que para que todo este trabalho possa ser realizado precisamos sempre de muitos donativos.

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