Início > Alverca > Mais duas semanas de incerteza

Mais duas semanas de incerteza

REPORTAGEM. O próximo dia 17 pode ser decisivo para os 79 trabalhadores da Cimianto. Se um novo adiamento da Comissão de Credores não impedir a realização de uma nova assembleia, o veredicto que tanto anseiam poderá ser decretado. A laboração está parada desde Maio e os sinais da tão anunciada retoma ainda não se fazem sentir na empresa. No meio de muitas dúvidas uma certeza vai ganhando força. Cada dia que passa sem que a produção seja retomada a fragilidade da empresa aumenta

Ana Filipa de Sousa

Incerteza. Angústia. Cansaço. Mas também uma ténue esperança em que o ano que está agora quase a terminar possa, um dia, ser recordado como aquele em que a empresa onde trabalham atravessou um momento muito crítico, mas conseguiu resistir à ameaça da insolvência e projectar-se novamente no mercado.

O misto de sentimentos pode até parecer contraditório, mas espelha bem o que sentem, neste momento, os 79 trabalhadores da Cimianto. Ali, naquela que foi uma das primeiras empresas do país a dedicar-se ao fabrico e comercialização de materiais em fibrocimento, ainda não há sinais da tão falada retoma económica e são poucos os que acreditam que os indícios da recuperação do país e do mundo poderão ajudar a inverter o processo de destruição dos seus postos de trabalho.

“As nossas expectativas são cada vez mais negras e, neste momento, já todos começámos a perceber que a liquidação poderá ser um dos caminhos. Ainda há hipótese de a empresa ser viabilizada, mas é uma possibilidade cada vez mais ténue e com cada vez menos força”. Luís Santos sabe o que diz. È representante dos trabalhadores da empresa alhandrense na comissão de credores e é membro da comissão de trabalhadores. Tem 35 anos, 12 dos quais a trabalhar na Cimianto e reconhece que a situação nunca esteve tão periclitante. “Em Setembro as nossas expectativas eram mais animadoras, mas neste momento temos muitas dúvidas em relação ao futuro desta empresa…só se houver um milagre ou uma prenda de Natal antecipada é que conseguiremos ver a empresa ser viabilizada”.

Luís Santos refere-se ao próximo dia 17 de Dezembro, o dia que poderá vir a revelar-se decisivo para a história da Cimianto e para a história de cada um dos seus trabalhadores. Depois de três adiamentos por falta de consenso entre o conjunto de bancos credores que poderão assegurar o financiamento do Plano de Viabilização da empresa, a Assembleia de Credores deverá reunir nessa quinta-feira e poderá mesmo ditar um veredicto.

A ansiedade e o nervosismo são, por isso, muito grandes. Estão estampados nos rostos de quem durante muitos ou poucos anos se habituou a tirar dali o seu sustento. De quem se habituou a fazer parte de uma empresa onde “havia um espírito familiar”. As palavras são de Álvaro Borges do Carmo, 59 anos que desmonta a equação: “O interesse e o nosso desejo era que a empresa fosse viabilizada porque temos família, temos filhos, temos netos, temos encargos e para nós era uma grande alegria que a Cimianto andasse para a frente. Era a melhor prenda de Natal que poderíamos receber, porque representava o futuro da empresa e a continuidade dos nossos postos de trabalho mas, só um grande milagre é que poderá tornar isso possível…gostava que o antigo admi-nistrador se lembrasse que dizia sempre que éramos uma família, que todos temos filhos, que precisamos desta casa e que ele foi o causador desta casa estar hoje arruinada”.

As reservas de quem trabalha no sector fabril da empresa há 34 anos são muitas e Álvaro do Carmo traça o seu diagnóstico. “Estamos parados desde o dia 26 de Maio, daí até então só fabricámos um dia. Até hoje não parámos de perder clientes e a oferta é muita…como é que vamos ter viabilidade e condições para entrar novamente no mercado? É muito difícil…estamos parados há muito tempo, perdemos terreno”.

Francisco José Quintanicho chama-lhe “morte lenta”. È assim que interpreta os últimos meses na Cimianto e é assim que prevê que passem mais uns quantos, caso a Assembleia de Credores do próximo dia 17 resulte num novo adiamento. “É impossível não assistir a tudo isto com alguma mágoa….A Cimianto chegou a ter 600 empregados, era um nome de referência no mercado e claro que atravessámos períodos mais ou menos difíceis. Hoje as encomendas estão a desaparecer, estamos a deixar de ter materiais para entrega. Vamos vendendo e escoando os stocks, conseguindo facturação para garantir o dia-a-dia, mas já nem conseguimos pegar em trabalhos maiores porque não temos material”.

Os 38 anos que trabalhou no sector das vendas da Cimianto conferiram a José Francisco a possibilidade de ter ainda uma outra certeza. “Sabemos que existiram vários factores para que a empresa chegasse à situação de hoje, mas tínhamos um bom produto e acabámos com todos. Gastaram-se milhares e milhares de contos na promoção de produtos inovadores, cuja qualidade foi reconhecida em todo o mercado, para hoje estarmos com uma divida de mais de três milhões de contos à banca. Tudo isto só nos leva a crer que houve uma intenção premeditada de acabar com os nossos produtos e acabar com o nome da Cimianto”.

Independentemente do que vier a acontecer no próximo dia 17, os trabalhadores da Cimianto lamentam que a administração central não tenha intervindo de uma forma mais actuante em todo o processo. “Pedimos audiências aos ministérios do Trabalho e Economia e à Segurança Social, fomos recebidos pelos ministérios mas mais nada. Sabemos que não temos o impacto social de uma Quimonda mas é a vida das pessoas que aqui trabalham que está em jogo e não se perspectiva que os próximos tempos ou o próximo anos nos traga nada de melhor. Muito dificilmente conseguiremos recuperar, até porque para isso acontecer era necessário que uma série de situações estivessem acauteladas, como a encomenda de algumas matérias-primas necessárias ao funcionamento, e não estão”.

Fundada em Setembro de 1942, a Cimianto está com a produção parada desde o dia 26 de Maio, data em que a administração de então solicitou o pedido de insolvência. Na primeira Assembleia de Credores, realizada a 8 de Setembro, foi aprovada uma proposta que previa a continuidade da actividade, mas a falta de consenso entre as entidades bancária que deverão viabilizar o processo já levou a três adiamentos. As atenções centram-se agora no próximo dia 17. Até lá, são mais duas semanas de incerteza.

Categorias:Alverca
  1. Ainda sem comentários.
  1. No trackbacks yet.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: