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2010: (sobre)viver no “pântano”

Luís Ferreira Lopes*

2009 chega ao fim com alguns sinais de esperança de retoma da economia, alívio dos consumidores com a inflação negativa e a euribor baixa, mas com o desemprego com tendência para passar rapidamente a fasquia dos 10% e o défice orçamental já em 8,4%, como reconheceu recentemente o governo.

No final do Verão, escrevi neste jornal uma crónica intitulada “2010: missão (im)possível?” Por altura das eleições legislativas, partilhei com os leitores do “NA” a minha previsão de forte probabilidade de um aumento dos impostos a médio prazo (designadamente IVA, ISP, tabaco e alterações nos escalões do IRS) e alertei para a clara derrapagem do défice e da dívida pública. Infelizmente, em poucos meses, a realidade deu-me razão.

O próximo Orçamento do Estado deverá confirmar que a situação das contas públicas é, obviamente, muito mais grave do que foi dito aos portugueses antes da campanha eleitoral. No final de Setembro, escrevi aqui: “O novo governo vai herdar um défice bem superior a 7% do PIB em 2009. Sócrates vai ter de navegar à bolina, ou seja, junto à costa, como fazíamos antes dos Descobrimentos, porque hoje o mar está demasiado agitado. Portanto, não se pode continuar a gastar mais do que se tem ou recebe.”

O estrondoso chumbo do novo Código Contributivo na Assembleia da República, no final de Novembro, mostrou que o governo não tem, de facto, margem de manobra e é por isso que se preparava para aumentar a receita fiscal através de um aumento encapotado de impostos. Em final de Setembro escrevi: “A despesa social não pára de aumentar e a receita não sobe, por mais oleada que esteja a máquina fiscal e porque a crise continua a causar mossa nas empresas e famílias. O próximo orçamento de Estado, que será debatido no início de 2010, terá como imagem de marca o colete-de-forças e dentro dele está, claro, o pobre Zé Tuga.”

Apesar dos indicadores macroeconómicos que vão sendo divulgados, mantenho o cenário que tracei no final de Setembro: retoma fraca e insuficiente para contrariar o aumento da taxa de desemprego no próximo ano, o que deverá provocar mais agitação social. Aliás, o Eurostat acaba de revelar que, em Outubro, a taxa de desemprego em Portugal já passou a fasquia dos 10 por cento. Com toda a sinceridade, como português espero estar enganado nesta previsão e seria excelente que o crescimento de 0,9% do PIB, registado no terceiro trimestre, fosse consistente e até maior ao longo de 2010.

Terminei a tal crónica do final do Verão, deixando um aviso: “Quem julgou que a crise – económica, financeira e social – acabou está bem enganado. Temos de dar a volta à maldita crise… com mais trabalho, produtividade, poupança, imaginação e capacidade de iniciativa. E não contemos com o Estado porque o dinheiro que descontamos mal dá para pagar tanto subsídio de desemprego ou de inserção social.”

Caros leitores, a situação é esta: para sobreviver ao pântano político e económico em que vamos continuar a viver (guerrilha no parlamento, continuação de casos de corrupção como o Face Oculta, mau funcionamento da Justiça, deterioração do défice e da dívida do Estado), é preciso espírito de sacrifício, prudência nos gastos, capacidade para resistir e trabalhar mais e melhor. Como escrevi no livro que lancei no início de 2009, temos mesmo de “ser mais espertos do que a crise”; isto é, temos de ser capazes de conseguir mais receita e cortar na despesa, tal como o Estado deveria fazer para equilibrar a situação muito preocupante das contas públicas.

Não pretendo substituir-me ao pároco de Alverca a dar lições de moral a ninguém, seja católico praticante seja doutro credo, mas tenho também uma mensagem natalícia. Neste período do ano em que se celebra o nascimento de Jesus Cristo (e não o pai Natal…), deveria haver maior moderação nos hábitos consumistas porque é importante readquirir hábitos de poupança, mais que não seja para prevenir tempos difíceis, depois da euforia do endividamento das famílias e do país. Como lembrava São Paulo, o edifício (a família ou a empresa) deve ser construído a partir dos alicerces e não do telhado.

* Editor de Economia da SIC, residente em Alverca do Ribatejo

Categorias:Alverca, opinião
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