Início > Alverca, opinião > Qualquer dia é um dia bom

Qualquer dia é um dia bom


Olga Fonseca*

Num dia de sol deste Outono tímido, um menino já com adopção decidida em tribunal, um menino que mesmo pequenino ninguém queria para seu filho pois sofria de problemas de saúde, foi entregue a uns Pais que, ainda que em regime de Tutela, fizeram dele o filho mais novo da família onde já tinham nascido duas filhas de sangue, hoje com mais de vinte anos de idade.

E esse menino, em pleno tribunal onde se consubstanciou o acontecimento, naquele dia corria pelos corredores, pedia água àquela a quem já chamava Mãe, imitava o cão, o gato, atirava beijinhos, pedia colo – puxando-lhe pela perna das calças – àquele a quem já chamava Pai e tinha uma irmã de olhos brilhantes a dizer ao Magistrado que, mesmo quando chegava do emprego mais tarde, tinha sempre tempo para brincar com ele… E por detrás dos óculos que usa para ver melhor, aquele menino, naquele dia, tinha um olhar feliz!

Com as alterações que teve a Lei da Adopção, muitas dos milhares de crianças institucionalizadas poderiam mais célere e facilmente ser encaminhadas para adopção. As crianças mais velhas seriam mais facilmente adoptáveis, em princípio, por pessoas também mais velhas (já que foi alargado o limite de idade dos casais adoptantes para 65 anos). Os trâmites jurídicos dos processos de crianças cujos projectos de vida fossem os da adopção seriam facilitados, mais adequados e permitiriam maior prontidão na resolução dos mesmos, entre outros aspectos. Tudo gerador de expectativas positivas para a resolução do problema de tantas crianças!

Os Técnicos que trabalham nesta área adaptaram as suas metodologias de trabalho, implementaram-se novas formas de intervenção, enfim todos os que têm as crianças no colo – sem terem um colo suficientemente grande para todas! – se esforçaram e esforçam para que as crianças possam ver defendidos os seus “superiores interesses” (como vem expresso na Lei) e possam ter uma Família, sem terem de aguardar um timing qualquer da roleta da sorte que pode nunca parar na casa onde se encontram.

Tudo isto é feito, mas muitas crianças continuam à espera em Instituições lotadas, sem que a sua situação seja resolvida, tornando-se “velhas” para serem adoptáveis. Mudanças: mudanças de atitudes, de comportamentos, mudanças sociais… É uma questão de tempo. Esta é uma área delicada, dirão alguns. Dirão mesmo muitos! E afinal, que andaremos todos a fazer? Como poderemos ultrapassar a barreira que ainda se encontra em tantas mentalidades e que impede as crianças de terem um futuro mais tranquilo e feliz? Como se consegue fazer perceber àqueles que decidem que uma criança abandonada durante 14 meses numa Instituição não deveria de ter de esperar mais 6 meses por uma Mãe que nunca lhe pegou ao colo? Como se reage quando, numa sala de audiências, se ouve um Magistrado dizer a uma Mãe que abandonou a filha bebé há mais de 2 anos e nunca procurou saber dela, que vai dar-lhe mais um pouco de oxigénio para ver se ela se esforça e quer a filha?…

Inventamos dias que possam ser bons para se nascer e ser criança em pleno? O tempo não pára, o mundo gira, as leis mudam. Mas, e as mentalidades?

* Psicóloga

Categorias:Alverca, opinião
  1. Ainda sem comentários.
  1. No trackbacks yet.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: