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Retrato da “geração legalmente feminina”

ENTREVISTA. Rosália Amorim, jornalista, lançou recentemente o livro: “O homem certo para gerir uma empresa é uma mulher”.

Rosália Amorim - Homem é "tubarão", mulher é "golfinho"

Rosália Amorim - Homem é "tubarão", mulher é "golfinho"

Nuno Lopes / Mário Caritas

“Notícias de Alverca”: Que objectivo teve ao escrever este livro?
Rosália Amorim:
O objectivo foi partilhar vivências e experiências que pudessem inspirar outras mulheres que querem lutar por um cargo de executivo e que trabalham para chegar ao topo. Já conhecia muitas destas executivas há mais de 10 anos, quando comecei a trabalhar para a revista “Exame”, e fui percebendo as dificuldades que tinham; fui também apreendendo as suas lições de vida e aplicando-as, inconscientemente, com a minha família e com a minha carreira.

“NA”: Aliás, não sendo uma executiva, a Rosália ocupa um cargo de topo dentro da sua profissão, o jornalismo.
RA: Sim, tenho um trabalho de editora que me exige coordenar uma equipa. Mas, voltando ao livro, foi interessante perceber sobretudo as diferenças de métodos de gestão entre os homens e as mulheres: um executivo homem é muito mais pragmático, mais terra-a-terra, mais “duro” – como digo no livro, o homem é um “tubarão” e a mulher um “golfinho”, porque a mulher é muito comunicativa e dessa forma consegue unir uma equipa para atingir determinados objectivos, pôr uma equipa a correr para o mesmo fim; não quer dizer que o homem não consiga mas utiliza métodos diferentes.

“NA”: Mas as mulheres não procuram mimetizar certos comportamentos masculinos?
RA: Sim, há a tentação do mimetismo, mas acho que já houve mais. Hoje em dia chamo a estas mulheres executivas a “geração legalmente feminina” porque já não têm aquele ar que tinha a Carla Fiorina, ex-número um da HP, que vestia fato cinzento, usava cabelo curto à homem e era dura nos seus discursos, era quase intratável e odiada pelas suas equipas. Mas esse mimetismo existiu e se calhar foi natural que existisse, para que a mulher conseguisse estar a par e passo com o homem, se calhar foi útil em determinada fase… Hoje em dia acho que a mulher, a pouco e pouco, vai-se soltando dessas amarras e isso faz parte da sua maturidade enquanto mulher: actualmente as executivas já usam pulseiras, brincos, saia, claro que continuam a vestir casaco de executivo mas não deixam de ser mulheres, de ser mães e não deixam de dizer que gostam de ir às compras ou ao ginásio.

Homem é “tubarão” e a mulher “golfinho”

“NA”: Portugal tem uma das médias mais baixas da União Europeia no que diz respeito aos cargos executivos no feminino, mas 59% da força laboral nacional provém das mulheres. Falta em Portugal o desejo de ser líder entre as mulheres?
RA: Isso tem também a ver com questões culturais. Em Portugal, cultural e historicamente, a mulher sempre teve menos acesso à educação. E portanto aquelas mulheres que hoje estão numa idade mais avançada faziam a 4.ª classe e iam trabalhar. As que figuram neste livro são uma excepção!

“NA”: Mas as mulheres deste livro são maioritariamente oriundas de famílias abastadas ou algumas vieram do nada?
RA: Do nada, não… Algumas são oriundas de famílias ricas, de famílias com nomes conhecidos; mas há outras que são, pura e simplesmente, oriundas de uma burguesia citadina em que os pais as puseram a estudar, em muitos casos indicando-lhes literalmente o curso que haveriam de seguir; como diz a Ana Maria Fernandes (CEO da EDP Renováveis): “O meu pai queria que eu fosse para Economia, não queria que eu seguisse Direito.” Mas, respondendo à questão anterior, tradicionalmente havia o problema das mulheres não terem acesso aos estudos, não tinham sequer direito ao voto quanto mais a estudar na faculdade, portanto algumas mulheres deste livro são excepções entre as mulheres da sua época. A partir do momento em que têm acesso aos estudos, as mulheres começam a ter ambição e querem chegar ao topo, já não querem só ficar em casa com os filhos por muito que isso as realize.

“NA”: A maternidade é uma das barreiras para a mulher não chegar ao topo?
RA: Sim. Com um bebé em casa, nos primeiros tempos, a mulher pensa muitas vezes: “Eu devia era ficar em casa, porque é que vou voltar ao trabalho? Isto é muito mais importante do que tudo na vida…” Mas conforme as crianças vão crescendo e ficando autónomas, nós percebemos que temos de pensar em nós próprias, no que queremos alcançar e nos nossos sonhos. Portanto penso que é possível conciliar as duas coisas.

“NA”: No seu livro fala nos chamados “tectos de vidro” com que uma mulher se depara para atingir o topo de uma empresa/organização. Que “tectos de vidro” são esses?
RA: Por exemplo, para o actual presidente dos EUA, Barak Obama, o principal “tecto de vidro” era a cor da pele; aliás os próprios analistas políticos diziam que era um “tecto de vidro” inultrapassável. E foi ultrapassado!

“NA”: Existe algum padrão comum às 25 mulheres que figuram neste livro?
RA: Há duas coisas que vale a pena referir: de todas só duas não tiveram filhos e só uma não casou. As restantes têm vidas normais, são pessoas normais, casadas e com filhos. Logo é possível ser-se mulher, ser uma pessoa normal e ter um cargo de executivo. Agora, que os “tectos de vidro” existem, existem. A maternidade é normalmente penalizadora para as mulheres e acaba por empatar a sua ascensão. Depois há muitos homens que continuam a ver a mulher como uma óptima formiguinha trabalhadora, uma boa chefe intermédia, mas não para ocupar um cargo de topo. Os próprios recrutadores ou caça-talentos pensam primeiro num homem, e porquê? Porque tem disponibilidade total! Eu pergunto-me se o homem também não é pai? Porque é que os homens têm disponibilidade total e as mulheres não? Isto é um “tecto de vidro” terrível de quebrar.

“NA”: Entre estas 25 mulheres, qual foi a história que mais a impressionou?
RA: Há uma que me marcou bastante, acho que é uma mulher admirável – a Esmeralda Dourado, que trabalhou na Covina nos anos 70 e, como ela diz, “passei ali uns maus momentos”, com homens da extrema-esquerda que a questionavam e que faziam testes terríveis para testar a sua competência, para provar que ela não podia coordená-los. Mas aguentou-se, fez-lhes frente, não desistiu e conta que essas pessoas hoje em dia têm imenso respeito por ela e continuam a tratá-la como nos últimos anos dela lá estar: “A nossa engenheira.” Ou seja, ela conseguiu ganhar o respeito deles enfrentando-os.

“NA”: Pensa que na próxima década aparecerão outras 25 executivas de topo?
RA: Inevitavelmente. Ainda recentemente foi nomeada, pela primeira vez, uma directora-geral da Microsoft, a Cláudia Góia, que é uma mulher de 37 anos, bonita, feminina, com três filhos, sem problemas nenhuns em se assumir como mulher. Isto prova que as coisas estão a mudar até numa das maiores multinacionais do mundo.

Algumas das 25 executivas de topo

Algumas das 25 executivas de topo

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