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2010: missão (im)possível?

Luís Ferreira Lopes

O país está gastar energias, tempo e dinheiro com as chamadas “guerras do alecrim e da manjerona”, de que já falava António José da Silva, numa muito actual peça de teatro do século XVIII. Aliás, Almeida Garrett e Eça de Queirós descreveram, no século XIX, um retrato do “Portugal dos pequeninos” que, pelos vistos, é tal e qual o que vivemos com ou-tros personagens, nesta inacreditável guerrilha Belém / S. Bento.

A politiquice, a intriga, o boato (?) das escutas, as suspeitas de corrupção, bem como a propaganda da partidocracia em geral (com poucas ideias válidas e projectos concretos), que nos entrou pela casa dentro durante estas duas últimas campanhas eleitorais, tornaram o ar quase irrespirável neste “jardim à beira mar plantado”… e tão cheio de ervas daninhas.

Enquanto os portugueses vão sendo bombardeados com fait-divers que servem para afastar as atenções dos reais problemas dos contribuintes e agentes económicos em geral, os portugueses que pensam pela sua própria cabeça sabem bem que o défice orçamental vai derrapando de forma muito perigosa, a dívida pública é altamente preocupante, a dívida externa é tal que tudo o que as empresas (banca incluída) produzem é para pagar o que devem, e o desemprego arrisca-se a chegar aos 12% em 2010, o que provocará maior agitação social.

Cenário pessimista? Eu respondo: infelizmente, é bem realista. Eu sou um optimista por natureza, mas estou preocupado com a sustentabilidade da tímida retoma que será, na prática, estagnação (se o PIB crescer 0,2% ou 0,3%) no próximo ano. Além disso, a margem de manobra do novo governo de maioria relativa será mínima para estimular a economia através de descida de impostos e de novas despesas de investimento.

Prevejo, aliás, um cenário de nova subida (temporária?) de impostos indirectos (IVA, ISP e tabaco), tal como alguns economistas já admitiram em entrevistas que fiz na SIC. A despesa social não pára de aumentar e a receita não sobe, por mais oleada que esteja a máquina fiscal… e porque a crise continua a causar mossa nas empresas e famílias. O próximo orçamento de Estado, que será debatido no início de 2010, terá como imagem de marca o “colete de forças” e dentro dele está, claro, o pobre “Zé Tuga”.

Sem margem para baixar impostos ao que resta da classe média, constituída basicamente pelos trabalhadores por conta doutrem e por pequenos empresários que mal conseguem pagar as rendas e os salários dos colaboradores, o “novo” governo vai herdar um défice bem superior a 7% do PIB em 2009. Sócrates vai ter de “navegar à bolina”, ou seja, junto à costa, como fazíamos antes dos Descobrimentos, porque hoje o mar está demasiado agitado. Portanto, não se pode continuar a gastar mais do que se tem ou recebe. Exige-se rigor redobrado ao “novo” ministro das Finanças.

Quem julgou que a crise – económica, financeira e social – acabou, está bem enganado. Temos de dar a volta à maldita crise… com mais trabalho, produtividade, poupança, imaginação e capacidade de iniciativa. E não contemos com o Estado porque o dinheiro que descontamos mal dá para pagar tanto subsídio de desemprego ou de inserção social. Depois das campanhas eleitorais, que duraram desde o Verão, caiu o pano e a  realidade, nua e crua, é para ser enfrentada à moda ribatejana: com uma pega de caras.

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