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Concerto em “Dó’s”

Olga Fonseca*

 

Agosto. Dia quente, sereno. Só uma leve brisa que refresca o ar e o cantar ritmado das velas do moinho lembram que aqui e agora, afinal, também existe tempo…

Pela casa espraia-se o aroma doce da canela, do açúcar e do tomate que lentamente se combinam e misturam, num prognóstico positivo e convidativo ao consumo negligente de calorias que, embora pelo perfume já enlace e projecte o pensamento para oníricas paragens, em breve se espalhará pelas papilas e mucosas, num contacto anunciado por todas as moléculas que pairam no ar…

Da janela vêm-se pássaros que rasam a água, bebericando-a em suaves beijos e danças graciosas e sedutoras que agitam levemente o azul.

Umas pinceladas na tela. Não parecem sair mal, neste contexto aromatizado a que se junta também a orquestração do desfazer das ondas lá em baixo na praia. Inspiro. Com o doce funde-se o dourado do Sol, o verde das algas, a espuma das ondas e o azul-marinho salgado. Combinam. Sim, combinam bem.

Pego no comando para acrescentar ao cenário os Nocturnos de Chopin. Apetecem-me. Bolas! Enganei-me! Peguei no comando errado e da TV começam de imediato a sair vozes, imagens que… interrompem! Ouço, quase por imposição. Mas o que ouço é daqui? Não! Contudo, e ainda que estranho, é-me familiar… Alzheimer? Será?… Já?… Ou serão notícias de um outro planeta qualquer por onde já possa ter passado?

Desligo a TV? Espero um pouco mais, tento situar-me. Concentro-me. Um tufão, cheias, H1N1 em crescendo, Ronaldo está constipado, festas “in” noite fora no Algarve, fogos, cegueiras no St.ª Maria, juros com tendência para subir, danças de roda no Parlamento, crise, políticos, pedófilo apanhado pela PJ no Algarveeee… Pronto!!!! Lembrei-me! Afinal o doce não é só doce, afinal é agridoce, talvez mais acre que doce… Amargo…

Pressiono o off, desligo a TV.

Respiro fundo. Invade-me de novo o aroma a canela, as velas do moinho continuam a rodar em sinfonia conhecida… Agosto. Dia quente.

Anoitece. Chopin, agora sim. Um copo de vinho para brindar às infindáveis estrelas que iluminam o céu, à lua que tinge o horizonte de prata e luz…

Está quase na hora de voltar. Quase esqueci o tempo, aqui agarrada à estaca do agora… Mas há outras dores, de outros, outras dores para cuidar e dar atenção, dores que não passam com a distância, com a ausência, com o pano do palco corrido…

Mastigo este pedaço de paraíso, lentamente, lentamente… Não era Alzheimer, não era outro planeta. Não. É o mundo onde vivo, onde tenho responsabilidade e consciência de que tudo é pouco, tão pouco, e que é preciso fazer tanto!…

Deito-me. Adormeço. Duas da manhã. O telefone toca. Ao ouvido chega-me uma amiga sem a voz sorridente do costume. Identifico o timbre nostálgico e triste com que partilha comigo a dor de chicotadas de egoísmo… Sim, eu sei… Eu sei… Também sei… Calma… Olha, as velas do moinho estão a cantar, ouves daí? Queres vir até cá? Poderíamos depois, talvez, partir no Rocinante, não sei, que dizes? Sim, talvez pudéssemos, não achas? Quiçá?…

Demoro a adormecer de novo. Lá de fora, chega a letra para o adágio da noite: “Só a alma nua é bela.”

 

* Psicóloga

Categorias:Alverca, crónica, opinião
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