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A Vida ao contrário

Mário Caritas/ Nuno Lopes

DESTAQUE. O NA foi aber como é trabalhar à noite. Acompanhámos um PSP do Peltotão de Intervenção Rápida, um proprietário de Roulotte, um Cantoneiro e uma ajudante de lar.

psp

Noite de quinta-feira, naquela ocasião também noite da sardinha assada nas retomadas Festas da Cidade e de S. Pedro de Alverca, realizadas no campo da feira. O agente João Lavadinho, 31 anos, há 10 na PSP e há oito nas patrulhas, conhecedor do que poderá suceder em situações limite de desacatos entre a multidão, prefere não arredar pé daquelas redondezas. Lavadinho pertence à Esquadra de Intervenção e Fiscalização Policial da Divisão da PSP de Vila Franca. Ele e mais três colegas formam um dos dois grupos do chamado Pelotão de Intervenção Rápida (PIR) que vigiam a festa, sempre prontos a agir. Iniciaram o turno às 22h00 e só o terminarão às 08h00 do dia seguinte.

“Nunca se sabe o que pode acontecer”, alerta este “patrulheiro” de rua. Trabalha de noite ou de dia, consoante as escalas, em turnos rotativos. Gosta de pertencer ao PIR. “Aqui só está quem quer!”

Existem quatro equipas de PIR nesta divisão. Os tipos de operações são variados. “Podemos apanhar de tudo. Mas fazemos muita prevenção, fiscalizamos viaturas suspeitas, indivíduos suspeitos em determinado local.” João Lavadinho é casado e em breve será pai. “Não há nenhuma esposa que lide bem com isto, tem de haver uma certa compreensão das partes. À noite é sempre complicado deixar a família em casa e vir trabalhar.”

O Cantoneiro

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Ao cabo de 10 minutos, já Armindo Leal havia ajudado a despejar para o interior da camioneta do lixo o conteúdo de uma dezena de contentores e de três ilhas ecológicas. Trabalha a um ritmo impressionante. Os mais de 30 anos de experiência facilitam-lhe esta ingrata missão: a de “homem do lixo”. Começou o turno à meia-noite e, como habitualmente, irá percorrer várias dezenas de quilómetros a recolher todos os detritos que “nós” produzimos no dia anterior. Este cabo-verdiano, de 56 anos, é assistente operacional. Em linguagem mais comum, é cantoneiro, ou seja, é um dos homens que andam nas traseiras das camionetas do lixo da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e que, em colaboração com outro colega cantoneiro, ajudam a despejar os contentores. O motorista é o terceiro elemento da equipa.

“Entrei para este serviço em Maio de 1975, já lá vão 34 anos. Era aquilo que havia na altura. É muito duro! Sobretudo à chuva, ao frio, ao vento; é mesmo duro! Por isso há muita gente que sai passado pouco tempo.” Nem os anos de hábito o fazem mudar de ideias: esta profissão – onde também existem mulheres – não é para qualquer um. “É um trabalho muito sujo. Mas há 20 anos era ainda pior: os contentores eram de ferro, ao passo que agora são de politilene, são muito mais leves; e há também as ilhas ecológicas que ajudam bastante. Os próprios carros do lixo são diferentes – antigamente tínhamos que estar lá em cima com a forquilha, no meio do lixo; agora isso já não acontece.”Naquela noite esta equipa ia percorrer as freguesias da Castanheira do Ribatejo, Vila Franca de Xira, Alverca – Bom Sucesso e S. João dos Montes.

Roulotte Morgana Bar

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Há cerca de dois anos e meio, João Paulo Barata resolveu dar um novo rumo à sua vida: abriu uma roulotte nocturna de comes e bebes em Santa Iria da Azóia. Recentemente expandiu o negócio para Alverca, terra de onde é natural, e abriu a roulotte “Morgana Bar” situada junto à rotunda do hipermercado “Jumbo”. Ele e a sócia, Sónia Zanneti, são actualmente patrões, ou seja, têm pessoal a trabalhar para si, mas eles próprios continuam a fazer noites inteiras com a missão de aconchegar o estômago aos outros.

“Trabalhar neste ramo implica uma rotina pesada. Temos que abdicar de muitas coisas, inclusive da família, dos amigos, das saídas, das férias, de tudo. Enfim temos que mudar a nossa forma de estar. Digamos que este negócio é um segundo casamento.” João, de 40 anos, numa noite normal de trabalho inicia o trabalho às 21h00 e fecha às 06h00 do dia seguinte. “O segredo é nós gostarmos disto, pois este tipo de negócio é muito interessante. E como sempre gostei de trabalhar com pessoas, sinto-me muito à vontade.”

João Barata e a sócia, uma cidadã brasileira, não abriram apenas mais uma roulotte. Abriram a roulotte. Trata-se de um espaço amplo, bem iluminado, com mesas e cadeiras tipo esplanada. O menu pretende ser uma mistura de sabores portugueses e brasileiros com o cardápio que é habitual nas roulottes, contudo com vários conceitos inovadores. “Procurámos criar um conceito misto que unisse os dois países. Outra questão tem a ver com a imagem: foi tudo estudado, este é um espaço amplo, luminoso. No fundo, também para tirar um pouco o estigma que ainda existe em relação às roulottes.”

Ajudante de Lar

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“Ao início fazíamos quatro noites seguidas, era muito desgastante. Por isso agora fazemos apenas duas noites. De hora a hora fazemos rondas para ver se está tudo bem e temos horas marcadas para mudar fraldas, dar medicação, fazer testes de glicemia; enfim é um trabalho que se vai fazendo com calma.” Alice Gaspar, 50 anos, ajudante de lar na Misericórdia de Alverca há sete anos, está numa profissão que adora. Acompanhámo-la no início de um turno da noite. Entrou às 00h00 e irá sair às 08h00. O estado de alerta tem de ser permanente.

É sempre mais complicado fazer a noite. Ainda para mais quando se tem que fazer face a uma série de situações já previstas. “Há utentes que têm uma diarreia, que vomitam, que têm uma quebra de tensão ou uma baixa de glicemia, enfim já chegámos a ter que ir com eles para o hospital.”

A ronda começa pelos vários quartos. Desta vez está tudo calmo. Apenas um utente ainda vê televisão numa sala junto ao seu quarto. Alice ajuda-o a deitar-se. Deseja-lhe boa noite. Na cama ao lado, outro utente dorme profundamente. Alice é que não pode dormir. Sabe que daí a pouco terá que começar a trocar fraldas e, no caso de algum idoso ter fezes, terá que lhe vestir um pijama lavado e mudar-lhe a cama.

No final do turno, o sentimento é de um grande vazio. “Saímos e ainda ouvimos aquele senhor que não dorme, que passa a noite inteira a bater à porta, a trocar o pijama, a arrancar a fralda e a desfazê-la aos bocadinhos… Sair daqui e desligar é muito complicado!”

Categorias:Alverca
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