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Há petróleo no Cevadeiro?

Luis Ferreira Lopes

Há uns largos anos, Raul Solnado era o artista principal de uma popular revista do Parque Mayer chamada: “Há petróleo no Beato” acerca de um cidadão comum, com contas por pagar e sempre à espera que lhe saísse a lotaria, que descobriu aquilo que julgou ser petróleo em abundância no seu quintal. Percebeu depois que, afinal, não era bem assim, mas o importante é que a comédia era sobre a vida de ricos que os protagonistas sonhavam ter.

Se a peça fosse hoje teria de ser actualizada apenas num pormenor: o sonho de qualquer português, endividado até ao pescoço, é sair-lhe o Euromilhões. De resto, é tudo igual: a mania das grandezas, a vida acima das capacidades, a ideia de que o dinheiro há-de aparecer, nem que seja numa manhã de nevoeiro, talvez no bolso de um qualquer D. Sebastião…

Vem esta história a propósito de uma notícia que li, recentemente, na imprensa regional: há grandes projectos para o pavilhão do Cevadeiro, em Vila Franca de Xira, habitual centro de exposições da sede de concelho. A acreditar na notícia, até se discute nas sessões de Câmara se é possível e viável (ou não) fazer um parque de estacionamento subterrâneo, ali a meia dúzia de metros do Tejo.

Para a maioria dos autarcas, independentemente das cores partidárias, parece que o pavilhão é pequeno para as exposições de artesanato ou para a cada vez menos importante feira do melão. Até que alguém pensou: e que tal deitar aquele abaixo e fazer um novo, bem maior?

Vamos, então, a três reflexões:

1) Se a ideia é fazer novas exposições sobre as empresas (que ainda sobrevivem) do concelho, presumo que fique mais barato alugar uma sala da FIL, no Parque das Nações;

2) Se a ideia é ter mais espaço para concertos, calculo que os salões do Ateneu em Vila Franca ou da Filarmónica em Alverca são mais do que suficientes para albergar artistas e público;

3) Se a ideia é mostrar obra com o dinheiro do IMI, das taxas da água e saneamento, das derramas e dos outros impostos municipais… aí, já me parece que não é boa ideia.

Pergunta que qualquer comum dos mortais está a fazer neste momento: não haverá outras prioridades para aplicar o dinheiro no nosso concelho?

Bem sei que o (mau) exemplo vem de cima. Basta lembrar o caso da planeada linha ferroviária de alta velocidade Lisboa – Porto. O governo quer fazer passar o TGV pelo interior do nosso concelho, em vez de passá-lo pela planície, na outra margem do Tejo, solução mais barata e óbvia. Mas se o TGV passar pela Calhandriz e outras freguesias montanhosas, haverá túneis para escavar e mega viadutos para encher o olho da população…; e encher a carteira das empresas de construção e obras públicas que, certamente, contribuem para financiar os cofres partidários à beira das eleições.

Como contribuinte, faço três perguntas muito simples:

1) Onde está o rigor e a estratégia na gestão da coisa pública, para que o dinheiro dos nossos impostos seja capazmente aplicado?

2) Alguém descobriu petróleo debaixo do pavilhão do Cevadeiro? Talvez seja por isso que até já se pensou em aproveitar a nova obra pública para fazer um parque de estacionamento – que o contribuinte terá de pagar se quiser usar, claro. Talvez escavando debaixo do pavilhão saia de lá petróleo…

3) E ainda esperam que o português comum (em especial o desempregado ou o que luta para que a sua empresa não vá à falência, mas paga impostos) se sinta motivado a votar em Outubro?

Categorias:Alverca
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