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A noite mais longa de Alverca

Mário Caritas

População recorda Cheia de 25 de Novembro de 1967.

Será suficiente a obra de regularização do Rio Crós-Cós para fazer face a uma catástrofe com a dimensão da Cheia de 1967?

Rua Almirante Cândido dos Reis

Rua Almirante Cândido dos Reis

“Nesse Sábado caiu uma chuva miudinha durante todo o dia, mas a partir das oito da noite começou a chover como eu nunca tinha visto. Com aquela intensidade só me recordo das chuvas em África.” José Sabino Lopes, na altura com 30 anos, tem bem vivas na memória as Cheias de 25 de Novembro de 1967 que afectaram toda a região. No concelho de Vila Franca de Xira, o número de mortos vítimas da intempérie cifrou-se nas centenas, apesar da censura salazarista vigente nunca ter revelado os números oficiais. Em Alverca, os rios – Silveiras e Crós-Cós – galgaram os leitos e a força das águas que desciam das serras arrastou consigo todo o tipo de objectos, animais e até pessoas. A maré cheia do Rio Tejo potenciou a tragédia.

Arnaldo Barros, 61 anos, filho de um bombeiro desse tempo, confirma esta informação. “Eu trabalhava na OGMA, foi tudo arrastado para lá: objectos, animais, pessoas… O meu pai contou-me que havia pessoas na zona do Cochão que iam sendo levadas pela corrente e agarravam-se a tudo o que lhes aparecia à frente; umas morreram, outras conseguiram-se salvar.” As Oficinas ficaram completamente inundadas, assim como toda a zona baixa de Alverca. No Choupal (Avenida 5 de Outubro), onde outrora existiu um edifício chamado “ilha da Quininha”, o cenário era desolador. “Ali morreu uma mulher afogada que vivia numa moradia térrea.”

Nessa época o quartel dos bombeiros voluntários funcionava num anexo do actual edifício da junta de freguesia e os carros eram guardados nas garagens situadas em frente. A primeira tragédia deu-se ali, logo ao início da noite mais longa de que os alverquenses têm memória. “Houve uma derrocada da parede da escadaria do adro da Igreja que soterrou um jovem bombeiro, ele foi a primeira vítima mortal das inundações”, conta-nos José Sabino.

“Ganhei força em mim para ajudar os outros!”

Quinta do Galvão

Quinta do Galvão

Agostinho Teixeira Rodrigues “Maniá”, 80 anos, já nessa altura era bombeiro (ainda é actualmente). “Eu estava à porta do quartel, ouvi uma grande derrocada e fui ver o que era: era o muro do adro da Igreja que caíra; nisto vou para tocar a sirene e levo um esticão de corrente eléctrica; mas ainda saí cá para fora para ir buscar o jovem bombeiro que tinha ficado soterrado, fui de novo electrocutado e fui pelo ar mais duas vezes. Esse miúdo morreu, chamava-se Basílio. Eu fui parar ao Hospital de S. José, em Lisboa, onde fui dado como morto.” Os olhos ficam baços ao recordar aquele episódio. “Ainda fui três vezes lá acima tentar salvar o rapaz, mas não fui capaz; depois o Manuel Pedro, que já morreu, foi-me lá buscar e foi também electrocutado; já dentro do quartel, o Alfredo velho, que também já morreu, é que me acordou com dois murros e me levou para o hospital…” (silêncio)

O que é que mais o impressionou? “Foi ver Alverca no dia seguinte, estava tudo cheio de lama e via-se corpos a boiar.” Ainda hoje se recorda? “Sempre! Se chovesse hoje como naquela noite, Alverca ficaria certamente bem pior porque agora há mais prédios; iria morrer muita gente e algumas casas velhas desabariam.” Na longínqua madrugada de 26 de Novembro de 1967, Agostinho recuperou e teve alta do hospital. E o que fez depois nesse dia? “Ganhei força em mim para ajudar os outros!”

Lúcio Janeiro, na altura trabalhador na Mague, partilha da opinião de “Maniá”. “Esta obra que vão fazer no Rio Crós-Cós de nada serviria se chovesse como naquela noite. Foi extraordinário! Eu morava num alto junto à EN10, não fui afectado directamente, mas ouvi chover toda a noite e ouvi muitas ambulâncias a passar. Na minha casa vivia um primo da minha mulher que era guarda-nocturno no Mercado Municipal e que passou toda a noite empoleirado nas bancadas de pedra; quando as águas baixaram ele saiu, veio a pé até casa, bateu-nos à porta e disse: «Vocês sabem o que se está a passar? Está para aí gente morta…» Vim imediatamente para a rua, encontro a «ilha da Quininha» com água e lama com mais de dois metros de altura e a solução foi começarmos a tirar a lama assim que o dia clareou.”

“As couves aumentaram de 5 para 25 tostões”

Na Avenida Capitão Meleças, os carros arrastados pela água amontoavam-se uns em cima dos outros. O dia seguinte foi inesquecível. Alfredo Ferreira, actual presidente da direcção da Casa do Povo de Arcena, ficou impressionado com o que viu na OGMA, onde trabalhava nessa época. “Eram corpos, troncos de árvores, lama…. Na noite da cheia eu estava em Arcena, na Casa do Povo, onde havia bailarico; quando desci a Alverca, no dia seguinte, parecia que tinha havido um terramoto. Perguntei-me: «Como é que a natureza faz coisas destas?».”

Alverca nunca mais foi a mesma. Lúcio Janeiro recorda, por exemplo, que logo a seguir dispararam os preços dos bens hortícolas. “Uma couve que custava cinco tostões no dia 25 passou a custar 25 tostões a seguir à intempérie pois muitas hortas ficaram destruídas.”

Versão integral na edição impressa do Notícias de Alverca

Categorias:Alverca
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