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“Foi você que fez isto?” – “Não, foi você.”

Olga Fonseca

Milhões de crianças em todo o mundo estão sujeitas às piores formas de perigo – maus tratos, abuso sexual, abandono, negligência, escravatura, trabalho forçado, exploração sexual para fins comerciais e outras actividades ilícitas, são alguns exemplos. Destas crianças, 97% vivem em países desenvolvidos.

Em Portugal, e sobretudo nesta época de crise que quase todos sentem, apesar de os Direitos das Crianças serem reconhecidos e consubstanciados quer pela Convenção para os Direitos da Criança, quer pela Legislação Portuguesa, existem ainda demasiados grupos de crianças e jovens que não vêem providas as suas necessidades, havendo situações em que é inaceitável o hiato entre a legislação e a realidade do seu cumprimento, bem como a pouca prontidão de que o percurso legislação-implementação é característico (sendo de ressalvar, claro, a esperada e natural lentidão na resolução de processos que envolvem números elevadíssimos de crianças e suas famílias e que são tratados por uma quantidade ínfima de Técnicos).

A pobreza, a crescente falta de condições socioeconómicas e a falta de uma educação adequada, parecem continuar a ser alguns dos principais factores responsáveis por este problema. Na verdade, as crianças, sendo o “elo mais fraco” do sistema, acabam quase sempre por não ser suficientemente protegidas pelos Estados que sistematicamente tendem a esquecer os mais vulneráveis.

Pobreza e sofrimento infantil, com os consequentes riscos para o adequado desenvolvimento da criança, formam um ciclo vicioso difícil de interromper, perpetuando-se os factores que arrastam consigo milhares de crianças que se vêem privadas de usufruir dos direitos que lhe foram reconhecidos pela referida Convenção.

Se, para além das óbvias dificuldades com que muitas famílias se confrontam nos dias que correm, tivermos em conta que grande parte dos problemas que afectam a infância se prendem com situações de insucesso, absentismo e abandono escolar, será fácil de compreender que estão criadas as condições ideais para que não se rompa o ciclo da pobreza e do risco na infância – longe de obterem níveis de educação mínimos, as crianças, numa linha de continuidade aterradora, permanecem bastante mais expostas à exploração e abusos, continuando limitadas na aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de aptidões que mais tarde lhes permitam ter melhores condições de vida.

Sem a assunção de uma atitude corajosa, com políticas sociais verdadeiramente dirigidas às reais necessidades das pessoas, sem a aproximação e articulação dos vários agentes envolvidos na intervenção e desenvolvimento social, sem o reconhecimento da necessidade de criar estratégias e adequar recursos dirigidos ao apoio e desenvolvimento social, será que se conseguirá ultrapassar a barreira da insuficiência, do insatisfatório, da miséria, da pobreza?
O envolvimento da sociedade civil e o espírito de voluntariado são, sem dúvida, importantes e fundamentais para a promoção do desenvolvimento social mas daí não pode resultar a ideia de que o voluntariado e o voluntarismo são a chave para a resolução de muitos dos problemas sociais que afectam a população, nomeadamente a infância. O envolvimento nos problemas de índole social implica uma intervenção profissional, podendo (e devendo!) esta, sim, ser articulada com os vários organismos existentes na comunidade.

Os problemas da infância e juventude condicionam o desenvolvimento de um país, são sérios e como tal devem ser encarados por todos. Esperar que as crianças cresçam para actuarmos, ou assumir a atitude de que “eles deviam resolver estes assuntos”,é abster-se da responsabilidade individual e social de cuidar e preservar os seus, de cuidar de si, é esperar a chegada de uma nova e moderna Arca de Noé que, perante a tempestade que atravessamos, nos recolha e rume a um mundo de utopias onde os problemas sociais são domesticados em actos de magia.

Deixar a vida suspensa, adiada para mais tarde, não será empenhar o futuro, resignando-nos à continuidade do referido ciclo de pobreza?
Lembro a resposta de Picasso a um embaixador nazi quando este, perante o seu Guernica ,lhe perguntou: “Foi você que fez isto?” – “Não, foi você.” .
Não queiramos mais Guernicas de espécie alguma, nem esperemos por quiméricas Arcas de Noé. Assumamos que é fundamental e urgente criar um ambiente protector para todas as crianças, promover o respeito pelos seus direitos e protegê-las dos inúmeros erros que nós, adultos, parecemos não nos cansar de repetir.

Categorias:opinião
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