Entrevista. Depois da conquista dos melhores resultados de sempre do PSD em Vila Franca de Xira, o vereador promete transformar a vida autárquica no seu palco. Sem dramas ou tragédias, a ordem agora é entrar em cena e começar a trabalhar numa área que, no seu entender, não tem sido encarada como prioridade. João de Carvalho, homem do teatro, cinema e televisão, tem os holofotes apontados sobre si. Afinal, um homem da cultura deverá saber, melhor que ninguém, como gerir esse pelouro

Dentro das condições existentes este era o pelouro que eu gostaria de ter e que mais me agrada. Porque tem a ver com a minha profissão, com a minha vivência diária, com aquilo que sei e onde penso que posso fazer a diferença.
Ana Filipa de Sousa
Nuno Lopes
Notícias de Alverca – É desde a semana passada o novo vereador da Cultura na câmara de Vila Franca. Sendo um homem da área ficou satisfeito com o facto de ter garantido este pelouro?
João de Carvalho – Dentro das condições existentes que deram a vitória ao Partido Socialista este era, como facilmente se percebe, o pelouro que gostaria de ter e que mais me agrada. Porque tem a ver com a minha profissão, com a minha vivência diária, com aquilo que sei e onde penso que posso fazer a diferença. É um pelouro que me vai dar algum trabalho e que, pelas condicionantes económicas, nunca terá muito dinheiro e onde vamos ter de inventar e tentar descobrir coisas novas e diferentes para transformar este concelho e dar-lhe qualidade de vida…
Mas foi difícil chegar a um entendimento para que pudesse ficar com a pasta da cultura?
O meu compromisso de honra coma população e com os seus concidadãos, e que foi sempre levantado em todas as alturas, é que o João de Carvalho candidato não iria de forma nenhuma defraudar ninguém. Agora é-me dada a oportunidade, respeitando as normas eleitorais, de não me excluir, nem aos meus pares, e de a coligação colaborar. Não deixando nunca de apontar, quando for necessário, as coisas que não estiverem dentro do nosso ponto de vista.
Durante a campanha eleitoral referiu, diversas vezes, que era preciso dar uma visão de qualidade ao concelho. O que é podemos então esperar dos próximos quatro anos na área cultural?
Já tivemos várias conversas sobre várias áreas… na música gostaria muito de implementar a Orquestra Sinfónica Juvenil do concelho, até porque não existe nenhuma no Distrito de Lisboa e nós já temos base de lançamento com a Orquestra Juvenil de Vialonga e com a da Póvoa. Em relação ao teatro, porque não temos espaços, vamos ter de criar uma dinâmica nos existentes, mesmo com as associações concelhias, como o Ateneu ou o Grémio, e com os grupos do concelho. Gostava de criar um Festival de Teatro concelhio, mas temos de criar condições para isso. Em relação ao trabalho das bibliotecas, que tem sido extraordinariamente bem feito, vamos apostar na continuidade e ficar na expectativa da nova Biblioteca de Vila Franca de Xira, assim como todo o espaço museológico tem estado muitíssimo bem entregue. Para o ano temos as comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres e vamos ter de lançar um programa. Depois, vai haver muita intervenção de rua, sobretudo a nível musical e de teatro porque é importante dinamizar.
A cultura tem estado afastada da vivência diária do próprio concelho, é isso?
Acho que a cultura não tem sido uma prioridade. É evidente que temos um Museu do Neo Realismo, um Museu Municipal com uma exposição muito interessante sobre largadas de touros, mas podemos e devemos ser mais interventivos, mais interactivos com a população. Estamos muito fechados dentro das salas…
Com um agenda muito direccionada?
Vimos muito pouco para a rua, interagimos pouco com as pessoas e essa é a formula que vamos ter de encontrar. Porque o facto de se estar num café ou na rua e de repente passar um quarteto que toca um pouco de música… isto é qualidade de vida e faz parte da missão da cultura. E nem sequer estamos a falar de coisas que custem muito dinheiro, porque como é conhecido as limitações orçamentais são muito grandes.
Já sabe com que orçamento vai trabalhar e com que meios vai poder contar?
Não sei ainda. Essa é uma discussão que ainda vamos ter…
Porque não basta dominar a área e ter bons conhecimentos…é preciso dinheiro e meios para poder dinamizar uma área como a cultural….
Às vezes pensa-se que a cultura exige mais dinheiro do que efectivamente exige. O hábito de se dizer que a cultura não é rentável é uma ideia que temos de apagar de uma vez por todas. Não sou adepto das companhias subsidiadas, porque penso que um espectáculo tem de se pagar a ele próprio…é uma questão de encontrar um equilíbrio entre aquilo que se pode gastar e aquilo em que a câmara pode participar. Várias câmaras fizeram durante muito tempo a oferta de espectáculos e eu não concordo.
Porquê?
Porque tem de haver uma parte simbólica que é paga pelo público, ainda que a outra parte seja complementada pela câmara. Noutros municípios houve a visão de perceber que, apesar de ser preciso juntar mais algum dinheiro aos orçamentos camarários àquilo que pagava às companhias que lá iam, as pessoas habituaram-se a pagar um preço simbólico, para ir ao teatro, para ver um bom espectáculo ou um bom concerto. Quem dá 70 euros para ir ver um jogo de futebol, pode levar dez pessoas e ir ver uma boa peça de teatro. Se 50 pessoas o fizerem, a maior parte das salas do nosso concelho ficam cheias.
Mas aí há também o problema da falta de espaços…
Vamos ter de os inventar! Não temos um CCB, não temos um Pavilhão Atlântico, não temos muitas salas de teatro…mas temos nas freguesias pequenas colectividades com salas e vamos ter de descentralizar, apostando na divulgação. Muito do que se faz no concelho não tem a divulgação necessária e é preciso apostar em termos de marketing porque é assim que se tem mais-valias e essa é uma aposta para o futuro. É preciso abrir as portas do concelho, chamar os de fora.

Ainda nesta questão da descentralização da cultura, já tem uma ideia do que poderá ser feito no Centro Cultural do Bom Sucesso?
Tem sido feita alguma programação, mas tenho de estudar. É um espaço que para fazer eventos musicais é óptimo, até para os artistas locais. Estes primeiros tempos vão ser precisamente para isso, para estudar…o problema é que quando se quer fazer alguma coisa a lotação e as lotações são sempre muito diminutas e tornam as coisas, na maior parte das vezes, incomportáveis em termos financeiros. É por isso que sou defensor de salas médias, como a SFRA ou o Ateneu, que já compensam e onde a câmara pode ter uma intervenção, mas onde elas também se podem bastar em termos económicos. Não é obrigatório que a cultura deixe de ser rentável, ela pode ser equilibrada. Depois, gostava de trazer ao concelho a Orquestra da Venezuela e outras coisas, mas não se pode trazer uma orquestra para um espaço que não tenho. Há-de chegar a altura em que o concelho de Vila Franca de Xira estará igual aos seus pares, em termos culturais, da Área Metropolitana de Lisboa.
Representou nestas eleições um projecto que conseguiu os me-lhores resultados para o PSD no concelho de Vila Franca. Sente uma responsabilidade acrescida neste mandato que acaba de iniciar?
É claro que sim, até porque estamos a falar de uma subida de sete por cento de uma coligação do PSD com o CDS, o MPT e o PPM…de uma subida de um para três vereadores e claro que é uma responsabilidade acrescida, ainda que seja sempre uma responsabilidade quando a população confia em nós e espera que consigamos fazer a diferença. Essa é sempre uma responsabilidade a que estou sempre muito habituado, porque enquanto actor sou sempre responsável quando subo para cima de um palco e tenho de dar o meu melhor. E vai ser exactamente o que vai acontecer em termos políticos, ou em termos de vereação do pelouro da cultura. É uma disponibilidade absoluta para com as pessoas e para com o executivo.
Isso significa o quê? Que estamos perante os primeiros quatro anos de uma carreira política do João de Carvalho?
Estamos nos primeiros quatro anos dos oito anos que o João de Carvalho dedica ao serviço público.
O que é que verdadeiramente o motiva?
As pessoas e achar que posso deixar alguma coisa diferente. Não só o meu legado artístico, mas também o meu legado interventivo como cidadão da área da cultura… Eu não gosto de dinheiro, gosto de palmas…todos nós gostamos que o nosso trabalho seja reconhecido. Felizmente para mim, o meu trabalho como actor tem sido reconhecido por todos. Agora espero que o meu trabalho como político e como vereador da cultura também seja reconhecido e que daqui a menos de um ano se note a diferença.
Assim sendo, vamos continuar a ver o João de Carvalho nos palcos e na televisão ou vamos passar a encontrá-lo apenas no gabinete?
A televisão pode acontecer uma vez ou outra, muito pontualmente. Mas, no palco a dedicação é igual à da política e não dá para fazer essa interligação. Não quer dizer que o João de Carvalho não possa participar numa leitura encenada no concelho…até porque não me quero coibir dessa pequena parte de poder ser interventivo até nas acções que fizermos. Não preciso de pedir a ninguém aquilo que faço eu mesmo e se é preciso complementar e preparar uma exposição, em que haja uma voz onde a minha poderia assentar bem, arregaço com maior prazer as mangas. Mas em termos profissionais, o trabalho que exige este pelouro não me permite estar noutra área.
Quando iniciou esta corrida à câmara de Vila Franca estava ciente de que teria de fazer uma opção ou as coisas acabaram por ir acontecendo?
Estava perfeitamente ciente. Até determinada altura andei dividido entre a pré-campanha eleitoral e a minha actividade, mas depois não. Foi uma tomada de posição, foi o achar que este era o momento de me entregar ao serviço público. Mas as coisas têm de ser compartimentadas, porque um espectáculo de teatro representa para um actor profissional oito a dez horas por dia de ensaios. Menos que a televisão, aquilo que me dói mais em termos de abandono é o teatro. …mas a política é um pouco uma exposição teatral… todos nós somos seres teatrais e todos gostamos de palmas. Os políticos também gostam de ser aplaudidos pelo trabalho que fazem e por isso não somos tão diferentes quanto isso. Esta é uma entrega total e eu estou inteiramente ao dispor desta tarefa e das pessoas. Tenho a porta do meu gabinete aberta para receber ideias e propostas. Porque todos nós temos ideias e todos nós temos um político dentro de nós.
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